Adágio, de Altair Cirilo

Adágio

Altair Cirilo dos Santos

aquele que tiver cabeça
atire a primeira pedra

aquele que incendeia sóis
não cuidando que os sonhos
apodrecem mais depressa
e o lodo encontra seu cultivo
atire a primeira pedra

aquele que alucina o amor
em precipício, selva de urze,
leito de sal e punhal,
atire a primeira pedra

aquele que fustiga a noite
tal mula sem cabeça
ou girassol no vendaval
atire a primeira pedra

eu não atiro a primeira pedra
minha cabeça gravita
ora aqui, ora na galáxia
ora aqui, ora no oceano
ora aqui, ora no inefável

não atiro a primeira pedra
prefiro acalentar luas
e com luares acender amores

meu amor se ancora na brisa
de uma voz
navega na chama indecisa
de um olhar

meus sonhos desabrocham
como pássaros

a minha noite é uma suave mão
em concha

não atiro sequer a última pedra

(Do livro Viagens, Curitiba/PR : Secretaria do Estado da Cultura, 2011)

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