O que representa uma Academia de Letras e Artes

O QUE REPRESENTA UMA ACADEMIA DE LETRAS E ARTES

 

Para início desta nossa conversa, fui buscar no sítio da Academia Brasileira de Letras uma definição sobre o que é e o que representa uma Academia de Letras.

Lá encontrei a seguinte sucinta definição:

«A Academia Brasileira de Letras (ABL) é uma instituição cultural inaugurada em 20 de julho de 1897 e sediada no Rio de Janeiro, cujo objetivo é o cultivo da língua e da literatura nacionais».

Na mesma página, há um link que redireciona para o discurso de Machado de Assis, fundador e primeiro Presidente da ABL.

Abro aqui um parêntese para fazer o seguinte comentário: a ABL se define num enunciado de apenas três linhas; tem um estatuto de apenas dez artigos, aprovado em 28 de janeiro de 1897, que permanece inalterado após 120 anos, cujo texto cabe em duas páginas e contém 472 palavras, já incluídos os nomes e cargos dos membros que compuseram a primeira Diretoria; e o discurso inaugural de Machado de Assis são apenas dois parágrafos com 232 palavras.

Só para efeitos comparativos, o estatuto da ALAP, com seus cinquenta e seis artigos, nome e cargos dos subscritores, totalizam 5.547 palavras.

Pela importância não apenas histórica, mas pelos elementos nele contidos, farei agora a leitura do discurso de Machado de Assis, proferido em 20 de julho de 1897, data da instalação da ABL, e após tecerei alguns comentários, antes de abordar sobre a nossa ALAP.

«Senhores,

Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

Não é preciso definir esta instituição, iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles o transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão».

O discurso inaugural de Machado de Assis, conforme destaques feitos no texto, de plano expõe um paradoxo existencial da entidade recém-criada: ao tempo que deve ser uma instituição voltada à conservação da unidade literária e, portanto, certa estabilidade firmada na tradição, deve também cultivar a constante ambição de representar o progresso, capitaneado pelas almas novas.

Num jogo de palavras muito bem e sucintamente construído, Machado de Assis aponta como a ABL deve ser o modelo dos movimentos literários, fundado no equilíbrio entre a ambição de progredir e a força retratora fundada na preservação cultural.

Feitos assim, a leitura e os comentários desse importante documento acadêmico, que deve orgulhar não apenas os imortais da ABL, mas a todos os brasileiros, homens e mulheres, que se dedicam a preservar a unidade literária por meio do cultivo da língua e da literatura nacionais, vejamos como a Academia de Letras e Artes de Paranavaí está contextualizada no discurso machadiano.

O discurso de Machado de Assis, pelo que pudemos inferir de sua leitura, é a principal referência do ser acadêmico.

No caso de nossa ALAP, além das Letras, temos as Artes que não são e nem podem ser consideradas em plano inferior. Longe disso.

Talvez, um problema a ser enfrentado pela nossa Academia diz respeito à abrangência do termo Artes. Em tese, todo artista pode ser membro de nossa Academia.

E o que é o artista? De modo geral, artista é a pessoa envolvida no fazer artístico criativo, na produção de arte.

Vê-se, assim, que a definição do artista está ligada ao conceito de arte que, ao longo do tempo, sofreu variações e ainda hoje é controverso.

Sabemos, inclusive, que as tentativas científicas de enquadrar o conceito de artista em parâmetros universais têm falhado sistematicamente.

Platão e Aristóteles, cujo pensamento filosófico influenciou toda a civilização ocidental, embora reconhecessem que trabalho artístico exigia criatividade, inteligência e capacidade de organização, consideravam os artistas como simples técnicos qualificados ou mesmo trabalhadores mecânicos diferenciados pela qualificação.

No Brasil, o conceito de arte mudou de forma considerável a partir de 1922, em decorrência das ideias semeadas na Semana da Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo de 11 a 18 de fevereiro de 1922.

A Semana da Arte Moderna influenciou não apenas a poesia, mas intensamente a música, a pintura, a escultura e a própria arquitetura.

A partir desse marco, surgiram inúmeros movimentos culturais, artísticos e literários no Brasil, quase todos propondo um rompimento com o passado, inclusive o movimento acadêmico.

Basta dizer que a ABL é anterior à Semana da Arte Moderna e, embora tenha recebido em sua composição integrantes da Semana, como é o caso de Manuel Bandeira, eleito em 1940, muitos artistas e escritores pós Semana olhavam para o movimento acadêmico com reservas, em razão do que o próprio Machado de Assis expôs no discurso de abertura da primeira sessão da ABL: conservar a unidade.

Os modernistas, no entanto, estavam afoitos em semear a pluralidade.

Cabe ressaltar, no entanto, que a Semana da Arte Moderna somente aconteceu com o papel decisivo do escritor Graça Aranha, membro fundador da ABL e ocupante da cadeira 38, que tem como patrono Tobias Barreto. Graça Aranha foi sucedido por Santos Dumont na cadeira 38, hoje ocupada por José Sarney.

O importante, e é este o ponto que quero salientar, é que a Semana da Arte Moderna criou no cenário artístico-cultural brasileiro um ponto de perene ruptura. Ou seja, depois de quase um século da Semana, ainda nos deparamos com o embate entre o moderno (no sentido de novo) e o antimoderno (referindo-me às estruturas que rejeitam o novo).

Inevitável, pois, que neste longo período tenham surgido movimentos antagônicos ao movimento acadêmico, por verem nas academias uma força contrária à “modernização” (entre aspas por não se referir a uma época, mas como sinônimo de movimento de vanguarda) das artes, das letras, da cultura etc.

A Academia de Letras e Artes de Paranavaí não está imune, portanto, às críticas que certamente os movimentos de vanguarda desferem.

Mas, ressalto, a Academia de Letras e Artes de Paranavaí, no ano em que comemora seu décimo aniversário, conforme nos lembra Machado de Assis em seu discurso, há de sobreviver «aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis».

No entanto, não haverá sobrevida à nossa ALAP se nós, seus membros, não estivermos dispostos a passar a nossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, que há dez anos fez surgir esta entidade, para que eles transmitam aos futuros membros, e toda obra da ALAP e de seus membros seja «contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira» e, especialmente, nossa vida paranavaiense.

Paranavaí, 8 de julho de 2017.

José A Cauneto

Presidente

 

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