O Espelho do Reino

O Espelho do Reino – História para criança NÃO ler

Renato Benvindo Frata

 

Num tempo e num reino não muito distantes havia um rei tido como usurpador que, não sendo escolhido pelo povo, assumiu o mais alto degrau do poder com auxílio de escaramuças e golpes baixos que derrubaram o reinado da rainha que o antecedia. Usou de falsetes promovidos por asseclas ávidos em nacos de poder; e de tudo o mais que a grande imprensa apregoou como verdade – e que acabou sendo. A rainha que não tinha jogo de cintura, caiu como pata pelas patacoadas que protagonizara, e ele se rodeou ministros, auxiliares e achegados, todos raposas da mais fina pompa e de altura social invejável.

Nesse reino existia um espelho muito especial que retratava tudo na maior perfeição. Era tão grande e eficaz que não só refletia o que lhe punham à frente como fazem os espelhos; mas enxergava, assimilava o que via e armazenava na memória o que se passava à sua volta.

Vaidosos, os raposas ministros da panelinha do rei, os auxiliares do governo que cuidavam das leis e alguns dos achegados que tinham a função de chancelá-las fazendo as valer, volta e meia se postavam de fronte ao espelho para saber se estavam bem disfarçados em boas raposas. Ali eles ajeitavam as cabeleiras, arrumavam algum amassadinho das vestimentas, sorriam gostando da imagem refletida e saíam contentes aos seus destinos, cônscios de que o mundo continuaria cor-de-rosa pelo tempo que o quisessem, pois para eles a imagem refletida dizia a pura verdade e lhes garantia segurança e confiança.

Mas não era isso bem o que acontecia: mal sabiam que aquele espelho escondia um grande segredo e que os retratava garbosos e belos fazendo com que enxergassem apenas as faces rosadas, as bochechas espessas, os sorrisos largos e os grandes e longos olhares de charlatanice que tem qualquer raposa. Por mais que posassem captando detalhes da aparência não conseguiam ver o corpo inteiro porque o espelho ao refletir a imagem, não mostrava os rabos que cada um possuía. Sendo raposas, imaginavam possuir rabos de raposa, claro; mas não, seus alongamentos eram rabos de ratazanas. Sim senhor, raposas com rabos de ratazanas. Não se apercebendo desse detalhe, viviam a bela vida que lhes propiciavam os cargos públicos remunerados com altos e polpudos salários e grandes e doces vantagens e assim, despreocupados, exibiam onde estivessem os robustos, grossos, compridos e peludos rabos imaginando-os da família canidae.

Foi aí que se deram mal, porque os rabos de ratazanas eram muito sujos e fedorentos, bem diferentes dos que imaginavam mostrar ao povo. Eles estavam irremediavelmente impregnados com a lama da subserviência, do compadrio, dos favores trocados, das leis vendidas, das votações espúrias, dos subornos em decisões, da corrupção ativa e passiva, da malversação do dinheiro público desviado de verbas para saúde, educação, segurança e outros; do dinheiro intrujado em malas e cuecas, dos desvios em joalherias, viagens, paraísos fiscais. E mais ainda: por mais que lavassem os rabos, por mais panos úmidos que passassem, escovas que esfregassem, produtos de maquiagem que aplicassem e por mais desculpas que dessem, não conseguiriam mudar sua cor ou feição. Seus rabos estariam sujos para o sempre. E o sempre, sabemos, é longo pra dedéu.

Bom, para não alongar a história, o reino do usurpador não teve um fim sóbrio, pois veio à tona que ele, como seus comparsas, possuía um rabo ainda maior, mais grosso, mais comprido, mais peludo e mais sujo e fedido, e que esse rabo cresceu tanto a ponto de ficar tão pesado que não conseguindo mais arrastá-lo, definhou e pediu para sair. Que vexame!

Por sua vez os ministros da panelinha, os auxiliares do governo e aqueles poucos achegados, raposas que eram, trataram de disfarçar as aparências mantendo os rabos enrolados, para que fizessem menor volume nas vestimentas e por consequência não ficassem tão expostos, podendo com isso continuar mantendo o naco de poder nas mãos. E até poderiam conseguir mais esse intento não fosse o segredo que o espelho revelou: ele não era construído com vidro, camada de prata, cola ligante e tinta preta como os espelhos comuns, mas feito com os olhos do povo que tudo vê, tudo assimila, mas não tem voz para dizer.

Sei que é uma história triste e dá na gente uma grande repulsa ao mostrar a violência à dignidade e o vilipêndio à sensatez de um povo que vê e não fala, momento desse reino nem tanto imaginário. Por isso recomendo que crianças que fazem do mundo uma caixa de lápis de cor, não tomem dela conhecimento por enquanto.

Assim não terão sua inocência conspurcada por esses velhacos que cuidam da politicalha.

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